São Paulo e o caos...

Lembro-me também desse último aniversário da cidade. Eu estava na Av. Paulista, completamente vazia. O grande letreiro do Itaú mostrando as horas. Eram quase onze (ou um pouco depois disso), e comigo estavam grandes amigos. Estávamos indo na direção do divertimento, do prazer, que não me lembro se era um bar de rock, ou algo que deveria ser do tipo. Mas assim como Caetano Veloso havia me marcado anos atrás, esse ano o que me marcou foi o grande letreiro do Itaú informando as horas.
E então, certo dia, estou voltando de Vila Nova Cachoeirinha, num ônibus que me levaria até a estação Santana do metrô, às 5:40, mais ou menos, para lá eu entrar num dos vagões. Desço algumas boas estações depois, lá na Saúde, para pegar meu ônibus que me deixa na porta de casa, sem ter a mínima noção de que o caos estava se apoderando de São Paulo. Na manhã seguinte, ainda alienado da situação, não entendo quando um amigo me informa que a cidade está sofrendo severos ataques do bandidos foragidos, que São Paulo está quase em Guerra Civil, que policiais, bombeiros, guardas-florestais e civis estavam sendo mortos, alvo da facção criminal PCC.
Infelizmente, nos dois dias que se seguiram, nada de muito diferente aconteceu. Mais policiais, bombeiros, guardas-florestais e civis morreram. Eu fiquei com medo de que a situação não se normalizasse, mas logo esse sentimento desapareceu, e deu lugar à revolta. Revolta contra o governo, contra os policiais, coitados, contra os malditos líderes do PCC, contra muita coisa, até que me dei conta que isso já era mais do que esperado. Só serviu para abrir os olhos da população para mostrar quem é que mantém a ordem por aqui. Serviu para mostrar que devemos, sim, ter muito medo de sair às ruas, que devemos voltar para casa as oito horas da noite, que devemos ser reféns do medo, que devemos acreditar piamente em boatos plantados, que devemos entrar em pânico...
E numa plena terça-feira, finalmente, veio a mim a vontade de chorar, perfeitamente canalizada em palavras, não ditas, mas escritas num arquivo de computador, que parece ser mil vezes mais inteligente do que muitos seres-humanos que nos "comandam". O que nos levou a isso? Qual foi o erro maior? De quem foi o erro? Perguntas sem respostas, cada vez mais martelando a nossa cabeça. Será que a gente merece isso tudo? Será que não basta de exemplo outras nações que vivem em guerra, ou, até mesmo, não muito longe, outros estados brasileiros onde o crime é a lei, e o estado é apenas um refém? Será que São Paulo não tem condições de evitar uma afronta como essa, sendo o que é, o mais populoso, o mais rico, o com maior repercussão nacional e internacional? Será que teremos de aguentar outras atitudes como essa de pessoas sem um mínimo de respeito por ninguém, por uma simples demonstração de força? Não. Não temos de admitir nada disso que aconteceu, não podemos deixar que isso ocorra outra vez. Mas outra pergunta surge: o que nós poderíamos fazer para evitar fatos vergonhosos como esses?
Sinceramente, eu paro por aqui, pois me lembro que não deveríamos nos preocupar com isso. Essa é a razão de haver um estado. O dever deles é manter a ordem, controlar o caos, fazer vigorar a lei que nos protege, a lei que tanto lutamos para conseguir. E quando me pego pensando nisso, nada mais parece fazer sentido. Nada mais importa num mundo onde não há nada entre você e a morte eminente, entre você e o desespero, entre você e o caos. Só me resta desistir, ou, melhor dizendo, deixar que os outros desistam por mim.